...não é porque você enlouqueceu. É quando um 928 está a caminho. V8 dianteiro refrigerado a água e dotado de grande deslocamento (5 litros), tração traseira. Feito para combater o Corvette com as mesmas armas e alguns segredinhos a mais... como o bloco de alumínio sem camisas (mesmo material empregado nas portas, capô e paralamas dianteiros) e transeixo traseiro - grandes responsáveis pela perfeita distribuição de peso (50 - 50) sobre os eixos.
Lembrei deste Porsche por causa do novo Panamera. Aquele que eu não gostei. O Panamera nasceu em Stuttgart, tem V8, tem tração traseira, mas as coincidências param por aí.
O 928 ronca bonito demais, sô. Mas para fazer justiça aos puristas (me excluo dentro dessa), publico o vídeo abaixo, um clássico instantâneo. O mestre Walter Röhrl em sua tela de pintura favorita, Nurburgring Nordschleife. A máquina? Simplesmente um Carrera 3.0 RS (rennsport, ou race sport), considerado por muitos como o Porsche definitivo.
Tá bom, na verdade era um pretexto. Queria publicar este vídeo logo de uma vez e arranjei a primeira desculpa que pude pra botar no ar.
Olha, é impressionante como este 6 cilindros boxer sobe de giro rápido nas reduções com punta-tacco. É lindo de ouvir. E a traseira desse bichinho é traiçoeira... as frenagens tardias que Rohrl executa em algumas variantes resultam em ensaios de trail braking, que é a técnica utilizada por pilotos de F-1 dos anos 60 para entrar um pouquinho de lado nas curvas (deixe o exagerado drift para os exibicionistas "all show, no go").
Walter a usa ocasionalmente devido ao comportamento minimamente (e bota mínimo nisso) sub-esterçante (saída de frente) na entrada das curvas. Às vezes ele opta por uma leve provocada no volante ou dá alguns golpes sucessivos no acelador para produzir efeito similar. Mas de maneira geral este RS apresenta-se neutro, e isso pode ser notado pela suavidade de Rohrl ao volante em boa parte dos turn-ins - tomadas para o ponto de tangência.
O perigo do 911 está justamente no fato deste sub-esterço virar um traiçoeiro sobre-esterço em um piscar de olhos - tão logo o motor traseiro decida cobrar sua parte na equação inércia + aceleração lateral. Mas dependendo da distribuição de freios, ou se o piloto frear tarde demais, há a tendência do sobre-esterço na entrada da curva, devido ao entre-eixos curto do 911. Isso é algo que pode ser utilizado a favor do volante, como Rohrl faz em variantes escolhidas a dedo, ou pode ser o prelúdio de um desastre. Este carro não é pra qualquer um, e por isso esta máquina é tão lendária quanto os pilotos que venceram a bordo dela...
PS: o crédito deste vídeo é da revista alemã Auto Bild, que convidou Walter Rohrl para comparar este modelo com o novo 911 Carrera em seu playground favorito.
PS2: este é o piloto que a Nissan ironizou no episódio do GTR "original", questionando sua competência. Uma blasfêmia. Sim, já é a terceira vez que menciono isso. Não, não vou parar com isso.