...penso ser uma homenagem decente a um piloto que quase nunca foi citado neste blog.
Para o último post do ano, um dos vídeos mais clássicos do You Tube: Ayrton Senna testa no circuito de Suzuka o Honda NSX, um dos primeiros "supercarros" nipônicos a ter condições de enfrentar a melhor safra dos esportivos europeus e norte-americanos. Lançado em 1990, o "New Sportscar eXperimental" era equipado com um motor central V6 de 3 litros (273hp), e contava com o emprego de metais nobres como titânio em suas bielas, e o alumínio em toda a carroceria.
A impressão que se tem é de que o brasileiro está testando o comportamento dinâmico do NSX para repassar suas impressões aos engenheiros da Honda. Como não tenho a data da filmagem disponível, não posso dizer se este teste foi realizado antes ou depois do lançamento do carro; mas há um certo consenso sobre as contribuições do piloto no desenvolvimento deste modelo.
Vamos ao que importa: irei comentar a volta de Senna a bordo do NSX.
Vindo lançado da reta dos boxes em quinta marcha, Senna freia forte para contornar a primeira curva. Note a correção que o piloto faz durante a frenagem (-3:58): um indício de que os freios traseiros estão um tanto quanto temperamentais. Punta-tacco e trail braking executados, Senna está em terceira marcha pouco antes do ponto de tangência da primeira variante; e tem um curto espaço para reaceleração.
Mal há tempo para respirar, e já temos a segunda perna, cuja entrada é traiçoeira: o momento da transição para a nova frenagem é feita ainda em curva, causando sobre-esterço em quase todo tipo de carro. No NSX não é diferente: assim que o piloto alivia, a traseira começa a escapar (-3:53). Senna executa o contraesterço com perfeição, embora o carro, temperamental, tenha escorregado um pouco além do ideal.
Na seqüência, temos os "esses", uma seqüência esquerda-direita-esquerda-direita que acabou sendo batizada como S-Curve. É um trecho que os carros de turismo geralmente fazem com uma marcha só, no caso do NSX a terceira. Por este motivo, alguns pilotos utilizam a técnica da frenagem com o pé esquerdo, buscando reduzir as perdas de tempo entre as transições do pé direito sobre os pedais. Infelizmente não é possível dizer se Senna utilizou ou não a técnica pelo ângulo de visão da câmera on-board.
Note o belo power drifting realizado pelo piloto na saída da última perna dos "esses" (-3:22). Neste momento, é possível ver que o NSX torna-se sobre-esterçante quando está no limite da aderência lateral dos pneus. A transição de comportamento ocorre próxima à saída do S-Curve.
Dunlop, uma das curvas mais desafiadoras do circuito. Extremamente longa e em subida, a visibilidade é bastante limitada. Sem ver o ponto de saída, somente a experiência traz o conhecimento de quando pode-se reacelerar totalmente. É possível notar novamente a saída de traseira do NSX no limite de aderência (-3:13).
E então, a forte freada para as duas pernas da Degner Curve. Mais uma vez, a exemplo da primeira curva, os freios traseiros desequilibram o carro (-2:59). E tal como as duas primeiras variantes do circuito, a segunda da Degner é traiçoeira por causa da desaceleração efetuada com o NSX tortinho, tortinho. O resultado é um sobre-esterço sutil, controlado com perfeição por Ayrton (-2:53).
Após passar sob a ponte enxugando o suor das mãos, é hora do Hairpin (-2:39). Feito em segunda marcha no Honda, torna-se um delicioso exercício de derrapagem controlada: os pneus de trás têm muito trabalho nesta curva. Cabe ao piloto dividir o grip disponível nos pneumáticos traseiros entre o torque do motor e a aderência lateral. Note como Senna escorrega o NSX até a zebra externa.
Depois de um longo trecho de aceleração em curva aberta, chega o momento da Spoon (-2:14). Para muitos, a variante mais divertida de todo o traçado. Tal como as duas primeiras curvas e a Degner, a Spoon é composta de duas pernas, mas desta vez a primeira é que é a mais lenta, e a segunda é mais veloz. Ambas foram contornadas em terceira marcha pelo NSX de Senna, que dá uma verdadeira aula de controle do sobre-esterço em alta velocidade.
Duas mais para terminar. 130-R (-1:45). Seguramente, a curva mais perigosa e desafiadora de Suzuka. Ayrton contorna este monstro em quarta marcha, enfrentando um pequeno sobre-esterço na entrada, e um outro mais forte na saída, quando as rodas externas se apoiam na zebra (-1:40). O diferencial autoblocante acaba fazendo o carro guinar para o lado com menos aderência nestas condições, mas o reflexo de Senna mal permite que notemos isso: ele corrige com um contra-esterço na medida exata.
E para concluir a volta: a última variante é uma chicane. E seu nome é Chicane. Nada de outro mundo, salvo uma bela de uma freada, com redução à segunda marcha.
Este foi Ayrton Senna. Tivemos o prazer de testemunhar neste vídeo um grande piloto em serviço, em um grande carro, num grande circuito. Todos nota 10. Para encerrar a análise, vale uma curiosidade: note como Senna se instalou no NSX de maneira que seus braços ficaram bem esticados, no que muitos chamam de "posição à italiana" de guiar. Bastante peculiar.
Bueno, é isso amigos. Espero que vocês tenham gostado do que viram neste primeiro ano do Blog do Mulsanne (estrado em Março) e do site Mulsanne (Maio). Ano que vem, teremos várias novidades, todas muito, muito interessantes. Não é frase de efeito, papo sério.
A exemplo do meu amigo Vitor Matsubara, do Motorhaus; gostaria de deixar um abraço a todos os amigos: donos de sites e blogs (veja lista ao lado!), proprietários e admiradores de carros antigos, mecânicos e preparadores; muitos dos quais conheço pessoalmente, e outros que, sem dúvida, terei este grande prazer.
Desejo a todos um excelente ano novo, com muita saúde, sucesso na realização de projetos, dinheiro no bolso e um belo de um automóvel na garagem: seja antigo, novo, original, preparado, ou de competição.
Feliz 2008!



































