Hamilton. Ah, Hamilton.
O destino guarda suas ironias para momentos críticos. A cena do McLaren MP4/22 do inglês atolado na brita da entrada dos boxes, indefeso e sem chances de recuperação, era cômica, trágica, ridícula. A expressão de desconsolo de Ron Dennis, os fiscais empurrando o bólido, os pneus traseiros acelerando em vão. Race Over.
Um erro absolutamente embaraçoso de um piloto que estreou já como veterano. Que teve uma consistência rítmica e de resultados muito superior à de seus adversários - Hamilton estava mais preocupado em vencer a guerra do que as batalhas.
Sua situação era confortável. Ainda que isso não desse o direito ao erro, Lewis parece ter o procurado. Abusou da sorte, e deixou de lado a corrida cerebral, marca registrada de seu ritmo ao longo da temporada.
Imprimiu um ritmo excessivamente forte durante toda a prova. Disputou duramente sua posição com Raikkonen. Coisas desnecessárias. Mais importante era garantir pontos de vantagem sobre seu rival Fernando Alonso, que fez uma inacreditável ultrapassagem sobre Felipe Massa na primeira curva (e por fora!); mas em breve já não era mais ameaça ao inglês.
O clima era uma incerteza permanente. Conforme a corrida avançava, o asfalto secava cada vez mais, tornando-se excessivamente abrasivo para o composto utilizado nos pneus intermediários, utilizado por todos.
Mais do que nunca, a corrida deveria ser cerebral. Pilotagem redonda, suave. Frenagens precisas mas sem abusos, entrada das variantes feitas nas pontas dos dedos, reacelerações à cargo do controle de tração.
Mais do que nunca, Hamilton precisava fazer aquilo que fez o ano inteiro. Mas cedeu às tentações da adrenalina, aos impulsos naturais de um piloto com sangue quente de campeão. Drive to Win, como diz o slogan de uma dessas lendas.
E assim o inglês consumiu seus pneus além dos limites do bom senso. Ignorou os sinais claros de fadiga excessiva dos pneumáticos, conforme seus tempos de volta aumentavam e a aderência lateral de seu bólido tornava-se cada vez menos tolerante.
Ao invés de agir, tal como um piloto campeão o faz, Hamilton preferiu reagir. Não reduziu seu ritmo até os pneus estarem em frangalhos. A estrutura, ou carcaça, de um dos pneus traseiros estava visível para o mundo. Uma prova de precipitação, de excesso. A equipe também teve sua parcela de culpa, foi passiva. Mas não era Ron Dennis, nem Haug, nem ninguém senão Hamilton dentro do cockpit.
Responsabilidade e atitude para decisões. Apenas isso.
Só naquele momento tardio, Lewis encaminhou seu McLaren para os boxes. Ainda haviam chances. Mas sob a pressão do título e de um espetacular Alonso, o piloto inglês parece ter se esquecido das condições críticas de aderência de seu bólido. Na perna de 90° à esquerda da entrada dos boxes, o monoposto saiu de traseira. A pista era estreita. Ao corrigir o sobresterço, não havia área para o MP4/22 "espalhar". Um erro embaraçoso. Race Over.
Race Over.