
Bump. Vou usar o inglês mesmo. Primeiro, porque é mais curto, segundo porque é mais genérico. "Irregularidade no asfalto", "degrau", "costelinha de vaca", "lombadinha", "morrinho mágico", tudo está contido nessa palavrinha de quatro dígitos: bump! Portanto, bump lá será bump aqui e ponto final. Vou repetir um bilhão de vezes a palavra, gostem ou não. Bump!
Dificilmente uma pista terá uma superfície 100% perfeita. Sempre haverão os bumps para incomodar a coluna e as costelas dos pilotos de monopostos, para desequilibrar os carros nos pontos de tangência, para travar as rodas nas freadas, para fazer os bólidos destracionarem na saída das curvas.
Então, vamos aos pitécnicos dos bumps!
-Quanto mais rígida ou menor o curso da suspensão, maior será o efeito do bump sobre o comportamento dinâmico do carro. E cuidado com a língua, literalmente.
-Existem bumps e bumps. Bumps relevantes, e bumps não-relevantes. Os relevantes estão no ponto de freada, no meio da curva, nas saídas de curvas lentas ou nas quais o carro está muito "apoiado" lateralmente na suspensão. Bumps não-relevantes estão nas retas, em curvas que exigem pouco dos freios, em curvas que há pouca aceleração lateral ou longitudinal. Mas acima disso, em última instância, a relevância vai ser determinada pela pergunta: o quanto de tempo este bump me faz perder?
-No duelo suspensão x bumps, só deverá haver trabalho de regulagem nos amortecedores no caso dos bumps relevantes. Os bumps não-relevantes deverão ser ignorados na busca da regulagem ideal. Em amortecedores sofisticados, há válvulas de compressão e descompressão em um circuito independente de alta velocidade. Ele serve justamente para alterar o comportamento dos amortecedores com os bumps sem afetar tanto o trabalho dos mesmos com a carroceria. Este último opera em um circuito de baixa velocidade dos amortecedores.
-Bumps no ponto de freada. Em carros com suspensão muito rígida, tendem a causar bloqueio das rodas, pois há pouca conformidade entre a interação da massa não-suspensa com as irregularidades do chão. Português simples: suspensão dura, pneu pula, e na fração de segundo que estiver no ar ou com pouca carga, o freio bloqueará a roda. Conhece o cheiro ardido de pneu queimado? Então. E se mexer na suspensão for proibido ou não surtir efeito suficiente, o ponto de frenagem deverá ser adiantado, e o bump deve ser superado com menos pressão nos freios. Tentativa e erro.
-Cuidado com a distribuição dos freios. Se você gosta de distribuição traseira, para facilitar a entrada na curva, pode perder estabilidade direcional de maneira incontrolável no caso do bloqueio das rodas traseiras.
-Bumps na curva. Bem difícil de dizer o que vai acontecer. Depende de uma pilha de fatores: distribuição de peso do carro, proporção de rigidez e de resistência à rolagem entre a suspensão frontal e traseira, o quanto de curso há remanescente na suspensão no momento do bump, o quanto de esterçamento, aceleração ou de frenagem está sendo aplicado, e claro, a própria geografia da curva. Subida, descida, cume, depressão, antes, depois ou exatamente no ponto de tangência.
-Sobre o parágrafo acima, entra o elemento mágico. A pecinha atrás do volante. Um bom piloto sabe o que vai acontecer com o seu carro, através da simbiose entre talento e experiência. Frente a isso, ele possui uma pré-interpretação que refletirá em um esterçamento extra ou um contra-esterço com possível ação nos pedais, mentalizado antes mesmo da ação se consumir. No caso de um autódromo, isso se torna corriqueiro, pois o bump é memorizado.
-Exemplo: Tamburello, 1994. Triste de lembrar da prova, mas é por um bom motivo. Ayrton Senna corrigia a saída de traseira do Williams FW16 com reflexo inacreditavelmente rápido. A ponto da tal saída de traseira sequer acontecer. Não se trata de sobre-naturalidade. Senna sabia que o bump estava lá, e sabia como o carro iria se comportar. Então, toda volta ele corrigia a traseira do Williams no bump, em uma velocidade de resposta altíssima. Normal para um dos melhores pilotos da história da categoria. Mas o pessoal da mídia sensacionalista parece ter se esquecido disso, e lá vai ele, o "Deus Senna", acima de todos.
-Dica: no caso de uma curva que exija bastante dos pneus e que tenha um bump no ponto de tangência teórico ou adiante, o ideal é antecipar o ponto de tangência para que o carro passe sobre o bump sobrando um pouco de curso de suspensão e aderência dos pneus. Na prática, abra a curva um pouco mais, adiante o esterçamento e passe sobre o bump o mais alinhado possível, sem comprometer a velocidade de saída. Assim, quando o bólido passar sobre o bump, ele não irá destracionar - justamente porque haverá um pouco de tração sobrando. Simple like that. Essa dica vale muito para curvas fechadas... e pra pulos de Rally também.
-Você sabe porque as vacas vão à Argentina? Para ver Boinos Ares. Valeu por essa, Matsubara!