Não parece, mas Senna faleceu há quase 15 anos. Este é um vídeo que, creio eu, muitos já tenham visto. Agradeço ao Felipe "Zurkka" Tadeu pela dica.
O que se passa? Ayrton senta a bota em um Honda NSX, carro cujo processo de desenvolvimento contou com o input do piloto. Para se ter uma idéia do que esse carrinho tinha de bom, o motor central-traseiro V6 3.0 VTEC DOHC (270cv) contava com bielas de titânio. Para as namoradas, executivos e nem-tanto-gearheads de plantão, um sistema de som da Bose confortava os ouvidos com perfeito equilíbrio entre as freqüências.
O vídeo traz algumas coisas interessantes, como a reação de profundo respeito dos fotógrafos japoneses (veja quando ele se agacha em frente ao automóvel), e o fato de Senna utilizar sapatos para pilotar o Honda em Suzuka.
Mas nada é mais interessante que assistir como o piloto utiliza o acelerador para equilibrar o comportamento dinâmico do NSX, reduzindo o sub-esterço (saída de frente) nos trechos de reaceleração com golpes sucessivos e bem encaixados no pedal da direita. É possível notar também como Senna é incisivo no volante nas entradas de curva, um indício que o NSX apresenta comportamento sub-esterçante não somente nas saídas das variantes - talvez devido à distribuição de peso pelo motor central-traseiro, talvez devido a uma calibragem de suspensão mais previsível para o consumidor final.
Na freada para o hairpin, após passar sob a ponte, Senna opta por fazer um "meio punta-tacco", digamos assim, utilizando parcialmente o freio-motor para reduzir a velocidade e não sobrecarregar os freios. Na saída da mesma curva, o piloto utiliza a técnica dos golpes no acelerador, mas com uma freqüência de movimento maior e menor amplitude no curso, realizando um power drift muito bonito. É possível observar estes mini-golpes no vídeo sempre que o carro começa a destracionar por potência.
OBS: se um dia alguém lhe pedir um exemplo de "noção de antecipação", uma das características fundamentais em termos de sensibilidade de pilotagem para um top driver, mostre a primeira curva que Senna contorna neste vídeo. O momento-chave é quando o NSX sobe na zebra, na saída da veloz e desafiadora 130R. Ayrton executa um contra-esterço muito rápido no volante assim que o Honda passa sobre as lavadeiras, compensando de maneira imediata a saída de traseira - que fatalmente ocorreria naquelas circunstâncias.
Assim, Senna "agiu" sobre o carro, não "reagiu". O comportamento dinâmico manteve-se equilibrado, e não houve saída de traseira graças à gigantesca noção de antecipação do piloto. À rigor chatolóide, a manobra foi realizada décimos de segundo após o feedback passado ao volante de que a traseira começaria a escapar. Mas Ayrton já esperava este feedback, e por isso sua resposta é imediata ao ponto de ser imperceptível na perspectiva de uma reação. Daí vem o nome "antecipação".