sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pitécnicos tacos aleatórios V: a arte de tirar o pé, parte I




Uma das primeiras coisas que um aspirante a piloto (ou bom motorista) aprende é, que para não desequilibrar o automóvel, deve-se esterçar o volante com suavidade, sem brusquidão. Se a frente do bicho é teimosa como em um Mustang, vale um tranquinho no turn-in, o mergulho rumo ao ponto de tangência. Mas é algo calculado e aperfeiçoado com a experiência, não é gratuito e intuitivo.

Uma das "segundas coisas" que um aspirante a piloto (ou bom motorista) aprende é, que a suavidade no acionamento do acelerador é proporcional à potência do veículo. Quanto mais estúpido o torque, mais cautela necessária.

E assim a coisa vai.

O fato é o seguinte: uma das últimas coisas que um aspirante a piloto (ou bom motorista) aprende é, para manter o equilíbrio dinâmico do carro quando se está andando no fio da navalha, é fundamental aprender a arte de tirar o pé dos pedais. Se serve de consolo, ninguém menos que o mestre Jackie Stewart declarou que uma das últimas técnicas que ele dominou foi conseguir tirar o pé do freio de maneira apropriada ao final do ponto de frenagem.

Então, vamos lá. Esse é provavelmente o pitécnico mais pretensioso e metido à besta de todos. Se Jackie demorou para dominar, quem sou eu para tentar falar qualquer coisa?


Parte I - tirar o pé do acelerador


De cabeça, vieram três "tirar o pé do acelerador" à minha cabeça.


-O primeiro é quando a curva, de média velocidade, não exige frenagem, mas o carro apresenta comportamento sub-esterçante, ou seja, sai de frente. Esse "tirar o pé" é esquisito. Tira-se o pé do pedal com uma certa brusquidão e casado com o início do esterçamento, mas imediatamente volta-se ao acelerador com mais ou menos 50% de pressão. Dependendo do piloto ou do carro, substitui-se essa volta ao acelerador por vários golpes curtos, sucessivos, e crescentemente mais profundos no pedal do acelerador. Ayrton Senna utilizava bastante essa técnica, principalmente com carros de turismo. Se o carro sai de frente demais, o início do esterçamento envolve um pequeno golpe de rotação. É o caso do Mustang dito lá em cima.

Se o carro tem entre-eixos muito curto, ou apresenta tendência de sair de traseira na entrada de curva sem aceleração, a tirada do pé é mais suave, mas ainda é provocativa.


-O segundo "tirar o pé" não envolve grandes segredos: freada linear. Como em uma longa reta seguida por um cotovelo. Nessa, a operação é rápida e dispensa delicadeza no alívio, exceto em casos excepcionais, como em carros com excesso de pressão nos freios traseiros ou com amortecedores traseiros excessivamente resistentes na regulagem de descompressão. Nestes casos, soltar o pé do acelerador e cravar no freio de uma vez pode resultar em uma traseira boba, com perda de estabilidade direcional. A consequência, ver o mundo girando, com o bônus de possíveis perninhas tremendo.


-O terceiro "tirar o pé" envolve algumas das curvas mais desafiadoras dos autódromos ao redor do mundo. É quando o trail braking inicia-se já DENTRO da curva. Por isso, normalmente envolve carros com altíssimo poder de frenagem e aderência lateral, como os protótipos e monopostos.

Não sabe o que é trail braking? Clique aqui então (abre em uma nova janela). O problema neste caso é, tirar o pé do acelerador rápido demais causará um sério desequilíbrio dinâmico no carro (saída de traseira), agravado pela necessidade de se pisar no pedal do freio. Tudo se resume ao quanto de peso estamos transferindo, principalmente o quão rápido, e neste caso, é uma transferência diagonal. Uma dor de cabeça sem fim.

Quer um exemplo de uma curva na qual alivia-se o acelerador já dentro da curva, buscando-se o freio ainda mais dentro? Dou logo dois: as curvas Estoril e 180º, no autódromo de Magny-Cours. No vídeo abaixo, a Estoril é a variante longa à direita que aparece aos 6 segundos, e a 180º é um grampo à esquerda com entrada torta, aos 37 segundos. Sim, é um F-1 moderno, aerodinâmico, com apenas dois pedais e que exige uma baita pancada no freio, mas o vídeo é apenas a caráter ilustrativo.

E de qualquer forma, as curvas estarão lá, não importa qual seja o carro: note aos 38 segundos. A traseira do McLaren de Raikkonen dá uma leve escapada, e o piloto corrige. Frear em curva é uma arte, que começa com o correto alívio do acelerador.





Um comentário:

Dirceu disse...

Povinho da F1, infelizmente, pediu pra remover o vídeo do youtube.