"Carro rápido é carro que anda pra frente", "não sou caranguejo pra andar de lado", "exibicionismo inútil, não serve pra nada".
Apesar de nunca ter dito algo parecido, a verdade é que eu nunca fui muito fã do drifting - simplesmente não me causava interesse. Mas se existem coisas que você precisa experimentar antes de bater o martelo, o "dori" (como dizem os japoneses) certamente é uma delas. E eu provei, e gostei muito.
Os japoneses inventaram essa loucura, em carros pequenos dotados de tração traseira.
Tudo começou há alguns meses, quando um amigo, piloto de mão cheia e faltante de vários parafusos na cachola, me convidou pra uma "drift session" em um local estratégico que acabamos chamando de pista de testes. O único requisito era que estivesse chovendo, o que permitiria derrapagens controladas sem muita velocidade e sem prejuízos aos pneus. Foi uma experiência ligeiramente desastrosa: eu brigava em excesso com o carro (uma picape, na verdade), que ora saía de frente ou de traseira demais, acelerador ou esterço em demasia, não conseguia recuperar o controle a partir de certo ponto. Resumindo, uma m...
Quem está acostumado ao automobilismo normal sabe o que é uma saída de traseira. A bacana é aquela que acontece sem exageros, no ponto de reaceleração (tração traseira), fazendo o carro buscar a zebra com as duas rodas externas quase ao mesmo tempo. Pra isso é necessário o traçado ideal, uma pilotagem adequada ao bólido e ao acerto, e bolas de aço. É a busca do limite.
É muito importante ter estas noções no drifing - para jogá-las fora, e aprender algo totalmente novo. O traçado não é o mesmo, a agressividade ao volante não é a mesma, a disposição dos pés e a atitude sobre os pedais muda. Tudo é diferente - inclusive o seu ponto de vista: seu novo amigo passa a ser a janela da porta. É por ela que você vai ter uns 35% do seu campo de visão.
Com o passar das sessões, fui pegando as dicas com este amigo, observando como que ele provocava o drifting e o mais importante: como ele se encaixava na derrapagem, tradução tosca da definição perfeita de Tiff Needell - "catch the slide". Seria o passo de curva, o momento de equilíbrio e constância na derrapagem controlada, com a frente do carro apontando entre 30º e 45º para dentro em relação à direção que ele de fato segue.
Acredite: é muito mais fácil olhando que executando. O tal estado de equilíbrio exige constantes e pequenas atualizações no comando do carro - aplicados de uma maneira única ao dori. E lembre-se, os pneus traseiros estão além do limite de aderência, mas em um estado quase estacionário. Falhar nestas atualizações significa aumentar o sobre-esterço até o possível descontrole, ou perder o drifting: os pneus da frente aderem e o bicho acaba fazendo a curva normalmente. O fato de praticarmos na chuva torna tudo ainda mais sensível, pois as reações ficam mais lentas e exigem maior planejamento.
Eu, colocando o R8 V10 de lado. Até que aprendi direitinho...
Revista Quatro Rodas (Editora Abril), foto por Marco de Bari.
Revista Quatro Rodas (Editora Abril), foto por Marco de Bari.
A rolagem da carroceria não me deixa mentir: velocidade.
É aí que está a graça do drifing. Se você é um cara hardcore no automobilismo, viciado em forças G e em car control dificilmente não irá se apaixonar pelo dori: em essência, é uma prática extrema de controle dinâmico. Esqueça aquelas bobagens floridas que alguns jornalistas dizem, que é um balé automotivo, pintura no asfalto, que é isso ou aquilo. Essas descrições à moda de Pedro Bial são para leigos baba-ovos e nos distanciam da realidade.
A verdade atrás do volante é intensa, exige concentração, sangue frio e percepção dinâmica afiada - todos os requisitos do automobilismo de velocidade, mas direcionados de forma totalmente diferente. É um novo aprendizado, no qual eu ainda estou engatinhando.
Existem algumas técnicas para começar o drifting, para sustentá-lo, e para salvar o controle do carro. O traçado também é diferente. No próximo post sobre o assunto vou falar um pouco disso.


6 comentários ( participe! ):
E qual era a picape? Tinha algum tipo de diferencial blocante?
Tô esperando pela próxima parte...
Ae! Mais um convertido hahaha
Eu sempre gostei do drift por ser justamente isso, uma forma diferente e sim insana de se "brincar" com o carro, é um teste a algumas habilidades e como o carro está em um de seus limites isso passa a ser um teste de sensibilidade também, aprender o que essa maldita caixa de metal ta tentando te dizer e responder a isso
Acho que o piloto perfeito deve aprender todos os tipos de técnicas possíveis e imagináveis, nunca se sabe quando alguma insanidade pode ser util
Mas convenhamos, é bonito de se ver 3, 4, 5 carros descendo aquelas serras pouco insanas deles um atras do outro fazendo a curva da mesma maneira como se fosse algo ensaiado
estou tentando achar um maldito video de um 240 e um silvia se não me engano correndo juntos e executando drifts a apenas alguns cms um do outro, coisa bonita de se ver mesmo
esqueci ate de comentar, belo hachi-roku que tem um vermelho bem parecido com a besta da audi ali
e que inveja como deve ter sido divertido colocar esse bicho de lado hahaha
Certo Juliano, mas é bom lembrar também que - acredito - te deram um carro meio inadequado para drift (que aliás eu sou leigo também)... uma picape no molhado começa a sair de frente quando começa a colocar velocidade pelo peso todo na frente, aí você dará acelerador e mais comando no volante para compensar a saída e o eixo de trás sai de uma vez de novo devido a má distribuição de pesos.
Mas isso você sabe melhor do que eu, mas se tivesse um carro "traseiro" mais equilibrado quem sabe?
Olá amigos!
Pedro, não posso dizer o modelo exato da picape pra não entregar, mas é um modelo com tração traseira (obviamente) e diferencial autoblocante por discos de fricção. A suspensão foi ligeiramente modificada: rebaixada (da forma certa) e com amortecedores bem mais duros. A próxima parte, se não sair hoje, sai amanhã sem falta.
Felipe, o drift em conjunto é uma coisa absurdamente insana. Não dá pra dar certeza que os caras sejam bons em velocidade, mas o domínio na técnica é indiscutível. Sobre o R8... ê saudades que dá!!
MMF, em teoria o que vc. diz é certo. Mas no drift as coisas são diferentes: a curva deve começar sem aderência nas rodas traseiras, então o peso na frente não prejudica tanto. Fora isso, a picape possui motor 4 cilindros, e o grande e pesado eixo diferencial permite uma distribuição de peso razoável.
abraço!
Poxa Barata, espero que tenha feito essas manobras em lugar apropriado. Você tem que dar o exemplo meu caro!
Fala ai qual o carro que usou, prometemos sigilo e descrição!!
hauhauhauahuahuahauhauhauahuahuahauhu
Escreve logo ai mais sobre essas aventuras... e parabéns pelo post do McLaren!
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