sábado, 20 de março de 2010

Eu e o drifting, parte 1

"Carro rápido é carro que anda pra frente", "não sou caranguejo pra andar de lado", "exibicionismo inútil, não serve pra nada"

Apesar de nunca ter dito algo parecido, a verdade é que eu nunca fui muito fã do drifting - simplesmente não me causava interesse. Mas se existem coisas que você precisa experimentar antes de bater o martelo, o "dori" (como dizem os japoneses) certamente é uma delas. E eu provei, e gostei muito.

Os japoneses inventaram essa loucura, em carros pequenos dotados de tração traseira.


Tudo começou há alguns meses, quando um amigo, piloto de mão cheia e faltante de vários parafusos na cachola, me convidou pra uma "drift session" em um local estratégico que acabamos chamando de pista de testes. O único requisito era que estivesse chovendo, o que permitiria derrapagens controladas sem muita velocidade e sem prejuízos aos pneus. Foi uma experiência ligeiramente desastrosa: eu brigava em excesso com o carro (uma picape, na verdade), que ora saía de frente ou de traseira demais, acelerador ou esterço em demasia, não conseguia recuperar o controle a partir de certo ponto. Resumindo, uma m...

Quem está acostumado ao automobilismo normal sabe o que é uma saída de traseira. A bacana é aquela que acontece sem exageros, no ponto de reaceleração (tração traseira), fazendo o carro buscar a zebra com as duas rodas externas quase ao mesmo tempo. Pra isso é necessário o traçado ideal, uma pilotagem adequada ao bólido e ao acerto, e bolas de aço. É a busca do limite.

É muito importante ter estas noções no drifing - para jogá-las fora, e aprender algo totalmente novo. O traçado não é o mesmo, a agressividade ao volante não é a mesma, a disposição dos pés e a atitude sobre os pedais muda. Tudo é diferente - inclusive o seu ponto de vista: seu novo amigo passa a ser a janela da porta. É por ela que você vai ter uns 35% do seu campo de visão.

Com o passar das sessões, fui pegando as dicas com este amigo, observando como que ele provocava o drifting e o mais importante: como ele se encaixava na derrapagem, tradução tosca da definição perfeita de Tiff Needell - "catch the slide". Seria o passo de curva, o momento de equilíbrio e constância na derrapagem controlada, com a frente do carro apontando entre 30º e 45º para dentro em relação à direção que ele de fato segue.

Acredite: é muito mais fácil olhando que executando. O tal estado de equilíbrio exige constantes e pequenas atualizações no comando do carro - aplicados de uma maneira única ao dori. E lembre-se, os pneus traseiros estão além do limite de aderência, mas em um estado quase estacionário. Falhar nestas atualizações significa aumentar o sobre-esterço até o possível descontrole, ou perder o drifting: os pneus da frente aderem e o bicho acaba fazendo a curva normalmente. O fato de praticarmos na chuva torna tudo ainda mais sensível, pois as reações ficam mais lentas e exigem maior planejamento.


Eu, colocando o R8 V10 de lado. Até que aprendi direitinho...
Revista Quatro Rodas (Editora Abril), foto por Marco de Bari.
A rolagem da carroceria não me deixa mentir: velocidade.


É aí que está a graça do drifing. Se você é um cara hardcore no automobilismo, viciado em forças G e em car control dificilmente não irá se apaixonar pelo dori: em essência, é uma prática extrema de controle dinâmico. Esqueça aquelas bobagens floridas que alguns jornalistas dizem, que é um balé automotivo, pintura no asfalto, que é isso ou aquilo. Essas descrições à moda de Pedro Bial são para leigos baba-ovos e nos distanciam da realidade. 

A verdade atrás do volante é intensa, exige concentração, sangue frio e percepção dinâmica afiada - todos os requisitos do automobilismo de velocidade, mas direcionados de forma totalmente diferente. É um novo aprendizado, no qual eu ainda estou engatinhando.

Existem algumas técnicas para começar o drifting, para sustentá-lo, e para salvar o controle do carro. O traçado também é diferente. No próximo post sobre o assunto vou falar um pouco disso.

6 comentários ( participe! ):

Pedro disse...

E qual era a picape? Tinha algum tipo de diferencial blocante?

Tô esperando pela próxima parte...

Felipe "Zurkka" Tadeu disse...

Ae! Mais um convertido hahaha

Eu sempre gostei do drift por ser justamente isso, uma forma diferente e sim insana de se "brincar" com o carro, é um teste a algumas habilidades e como o carro está em um de seus limites isso passa a ser um teste de sensibilidade também, aprender o que essa maldita caixa de metal ta tentando te dizer e responder a isso
Acho que o piloto perfeito deve aprender todos os tipos de técnicas possíveis e imagináveis, nunca se sabe quando alguma insanidade pode ser util

Mas convenhamos, é bonito de se ver 3, 4, 5 carros descendo aquelas serras pouco insanas deles um atras do outro fazendo a curva da mesma maneira como se fosse algo ensaiado

estou tentando achar um maldito video de um 240 e um silvia se não me engano correndo juntos e executando drifts a apenas alguns cms um do outro, coisa bonita de se ver mesmo

Felipe "Zurkka" Tadeu disse...

esqueci ate de comentar, belo hachi-roku que tem um vermelho bem parecido com a besta da audi ali

e que inveja como deve ter sido divertido colocar esse bicho de lado hahaha

MFF disse...

Certo Juliano, mas é bom lembrar também que - acredito - te deram um carro meio inadequado para drift (que aliás eu sou leigo também)... uma picape no molhado começa a sair de frente quando começa a colocar velocidade pelo peso todo na frente, aí você dará acelerador e mais comando no volante para compensar a saída e o eixo de trás sai de uma vez de novo devido a má distribuição de pesos.

Mas isso você sabe melhor do que eu, mas se tivesse um carro "traseiro" mais equilibrado quem sabe?

Juliano "Kowalski" Barata disse...

Olá amigos!

Pedro, não posso dizer o modelo exato da picape pra não entregar, mas é um modelo com tração traseira (obviamente) e diferencial autoblocante por discos de fricção. A suspensão foi ligeiramente modificada: rebaixada (da forma certa) e com amortecedores bem mais duros. A próxima parte, se não sair hoje, sai amanhã sem falta.

Felipe, o drift em conjunto é uma coisa absurdamente insana. Não dá pra dar certeza que os caras sejam bons em velocidade, mas o domínio na técnica é indiscutível. Sobre o R8... ê saudades que dá!!

MMF, em teoria o que vc. diz é certo. Mas no drift as coisas são diferentes: a curva deve começar sem aderência nas rodas traseiras, então o peso na frente não prejudica tanto. Fora isso, a picape possui motor 4 cilindros, e o grande e pesado eixo diferencial permite uma distribuição de peso razoável.

abraço!

Rafa Paschoalin disse...

Poxa Barata, espero que tenha feito essas manobras em lugar apropriado. Você tem que dar o exemplo meu caro!
Fala ai qual o carro que usou, prometemos sigilo e descrição!!
hauhauhauahuahuahauhauhauahuahuahauhu
Escreve logo ai mais sobre essas aventuras... e parabéns pelo post do McLaren!