
Sempre falei que a condição climática mais perigosa para o automobilismo é a garoa persistente. Aquela indecisa, que não lava a sujeira na parte externa do traçado, mas que já transforma o emborrachado em sabão e forma trechos com potencialidade de aquaplanagem. E também, porque, quando chove de vez, o piloto tira o pé e pronto: a visibilidade torna-se mínima, para não dizer nula.
Na etapa da Força Livre, algum protótipo largou óleo bem na freada do "S" do Senna, simplesmente a freada mais forte de todo o circuito. Confesso não ter contado, mas é seguro dizer que passaram reto ao menos doze vezes, isso contando algumas repetições dos mesmos carros deslizando na volta seguinte.
Contudo, a cena mais emocionante do dia, ao ou menos a que levou ao público ao delírio, foi protagonizada por este que vos fala. Eu estava descendo os boxes, já rumo à Curva do Sol, quando o meu "pneu" esquerdo deslizou como um cubo de gelo sobre pia de mármore. Não houve tempo para contra-esterços nem alívio de qualquer espécie: meu "bólido" simplesmente perdeu o controle e rolou em plena descida dos boxes por mais de cinco metros.
Acho que foram cinco ou seis cambalhotas. Por proteger a câmera com o meu corpo, não pude fazer nada além de rolar como uma bola quadrada: as arestas eram os meus cotovelos e joelhos, em estado digno de um skatista neste presente momento. Meu instrumento de trabalho não ganhou um arranhão sequer, talvez o único motivo de orgulho dessa manobra no melhor estilo Il Leone Mansell.
Eu já sabia que isso podia acontecer, mas a pressa me fez cometer a peripécia. Vocês lembram deste post do dia 29 de Abril? Vou recuperar o trecho final dele:
"Quem desenhou a sola certamente não contava com este tipo de acidente. E digo mais: também não levou em conta algo tão trivial como chuva. Este tênis gera aderência inferior a um pneu slick usado em um piso de concreto molhado. Já perdi a conta de quantas vezes eu caí tragicomicamente com este par de tênis sob o menor indício de umidade no solo.
Parte da resposta para o parágrafo acima eu sei. A sola é estruturada de uma maneira mais rígida que a média, sendo que o amortecimento ocorre por um sistema de amortecedores de borracha. Só que a sola mais rígida apresenta menor fidelidade de deformação e conformidade ao piso, gerando pontos periféricos críticos e tendenciosos a aquaplanagem."
Sim, sim. Eu sabia e dei uma de cabeção. Caí tragicomicamente, mais uma vez, com o tal do Adidas A4, acho que é esse o nome. A diferença, é que dessa vez havia público: o mesmo público que se divertia com o pessoal passando reto no "S" do Senna, foi ao delírio quando viu o Ford GT-40 do Mulsanne rodando sem parar na saída dos boxes. Para estes, foi a cena do dia.
Ao menos, eram amigos que estavam rindo. Mas que amigos sacanas, vou te dizer uma coisa!























